Cotidiano



     Desde que me lembro, uso palavras para armazenar memórias e ideias. É divertido. Quando escrevo me sinto livre e, para mim, liberdade é sinônimo de paraíso. Meu paraíso particular. Tenho notas sobre mim, sobre amigos, sobre pessoas que conheço na rua, no ponto do ônibus, na fila do banco, na bilheteria do cinema, na papelaria do supermercado ou em alguma livraria da cidade.

     Sim. Gosto de lugares barulhentos. Tenho uma leve rivalidade com o silêncio, e é no caos diário que vivo as melhores aventuras. É como usar o transporte público, por exemplo. Acho fascinante ver a vida passar por mim assim, sem pretensão nem previsão de fatos. Só acontecendo, como tem que ser. Observar a vida existir do lado de fora da janela do ônibus, todos os dias. Ficar sentada do lado de dentro, fotografando com os olhos, e arquivando na mente cada detalhe relevante e/ou interessante.

     A rotina pode ser um conjunto de acontecimentos inéditos, que só parece repetitivo e defasado porque ninguém se dá ao trabalho de notar. 



'Amanda Nascimento