Pessoas felizes choram


Das coisas erradas que me ensinaram na vida, conheçam "chorar é para os fracos".

Acreditei nessa balela por muito tempo. Não me permiti transbordar. Guardei tantas mágoas e sofrimentos, quando poderia ter deixado que as dores fossem embora em algumas lágrimas derramadas. Não estou dizendo que devemos nos entregar ao que nos fere, ou que render-se ao pranto é a solução dos problemas. O que estou dizendo é que de vez em quando a gente tem que se dar o direito de sentir [e chorar]. Para lavar a alma mesmo. E não seremos fracos por isso. Se analisarmos bem, é preciso ter muita coragem para demonstrar uma ferida emocional. Seria Como admitir que o nosso escudo, ou parte dele, foi derrubado.

Em meu recente processo de amadurecimento descobri algumas coisas. Uma delas é que "pessoas felizes choram". E não estou falando da reação de quem passou no vestibular, ou da emoção dos convidados de um casamento. Refiro-me ao choro resultante da dor ou da saudade, por exemplo. Pessoas felizes choram porque são bem resolvidas. Porque sabem que, embora seja preciso manter o controle nas situações mais difíceis, por outro lado somos humanos, passíveis de mágoas e lágrimas. Ninguém está imune a nada. Em algum momento de nossas vidas seremos vítimas de algum dissabor, seja por uma insatisfação ou por um adeus que não pudemos dar. 

Não creio que seja possível estar totalmente  feliz, ou ser completamente  triste. 

- Quem nunca perdeu um ente querido ou um bichinho de estimação? 

- Quem nunca recebeu um "feliz aniversário" de alguém que ama,  ou nunca encontrou uma moda de R$ 0,50 na rua? 

Já reclamei por coisas que eu mesma poderia consertar, como também deixei de enxergar grandes conquistas.

- Entende onde quero chegar?

Perdemos boas oportunidades de sorrir para a vida, só porque nossa visão usa lentes de aumento quando tem de lidar com problemas. Então tenha calma. Respire fundo. Sorria sempre que der. E cale-se quando quiser. O choro é livre, meu querido. Mas livre-se dele quando ele não for necessário. 

Tudo é uma questão de equilíbrio. Apenas!


 
'Amanda Nascimento 


Estranho ser eu


     Gosto de lugares barulhentos. Não lido muito bem com o silêncio. Minha rotina alvoroçada me faz viver as melhores aventuras. Como usar o transporte público, por exemplo. Acho fascinante ver a vida passar assim por mim, sem pretensão nem previsão de fatos. Só acontecendo, como tem que ser. Observar o tudo existir do lado de fora da janela do ônibus, todos os dias, ignorando  aquela quantidade absurda de pessoas espremidas no mesmo lugar. Ficar sentada do lado de dentro, fotografando com os olhos, e salvando na mente cada detalhe relevante e/ou interessante.

     Cada dia é um conjunto de acontecimentos inéditos, que só parece repetitivo ou defasado quando a gente não se dá o trabalho de apreciar. Perdemos a essência da humildade toda vez que deixamos de perceber o que acontece à nossa volta. Seja o sol quando se põe, ou o olhar de lua cheia que se perde ao chorar. Tem gente que mal consegue enxergar uma espinha no próprio nariz, e jura que conhece os mistérios do mundo. Não repara no moço da padaria, que ajeita seu uniforme quando vê a moça da cantina chegar. Nem nunca viu um arco-íris enfeitando o céu da esquina da rua de cima. Parece irrelevante, eu sei, mas quem não notar essas coisas "pequenas" do dia a dia, não será capaz de reconhecer um detalhe importante quando ele acontecer.

   É tão estranho ser eu. De verdade. A maioria das pessoas acha que eu sou maluca. Não compreendem minha alegria. Deve ser minha mania de sorrir extravagante todos os dias. Ou a minha ousadia mal compreendida, quando tento ignorar um mau dia. Vai ver ninguém entende a viagem que se passa na minha cabeça, vendo o tempo dançar e voar, da hora que acordo até a hora que deito. Pode ser por meu jeito estabanado e escancarado de viver sendo bem, quando o mal quer me afetar.

Vai saber...

'Amanda Nascimento