Estranho ser eu


     Gosto de lugares barulhentos. Não lido muito bem com o silêncio. Minha rotina alvoroçada me faz viver as melhores aventuras. Como usar o transporte público, por exemplo. Acho fascinante ver a vida passar assim por mim, sem pretensão nem previsão de fatos. Só acontecendo, como tem que ser. Observar o tudo existir do lado de fora da janela do ônibus, todos os dias, ignorando  aquela quantidade absurda de pessoas espremidas no mesmo lugar. Ficar sentada do lado de dentro, fotografando com os olhos, e salvando na mente cada detalhe relevante e/ou interessante.

     Cada dia é um conjunto de acontecimentos inéditos, que só parece repetitivo ou defasado quando a gente não se dá o trabalho de apreciar. Perdemos a essência da humildade toda vez que deixamos de perceber o que acontece à nossa volta. Seja o sol quando se põe, ou o olhar de lua cheia que se perde ao chorar. Tem gente que mal consegue enxergar uma espinha no próprio nariz, e jura que conhece os mistérios do mundo. Não repara no moço da padaria, que ajeita seu uniforme quando vê a moça da cantina chegar. Nem nunca viu um arco-íris enfeitando o céu da esquina da rua de cima. Parece irrelevante, eu sei, mas quem não notar essas coisas "pequenas" do dia a dia, não será capaz de reconhecer um detalhe importante quando ele acontecer.

   É tão estranho ser eu. De verdade. A maioria das pessoas acha que eu sou maluca. Não compreendem minha alegria. Deve ser minha mania de sorrir extravagante todos os dias. Ou a minha ousadia mal compreendida, quando tento ignorar um mau dia. Vai ver ninguém entende a viagem que se passa na minha cabeça, vendo o tempo dançar e voar, da hora que acordo até a hora que deito. Pode ser por meu jeito estabanado e escancarado de viver sendo bem, quando o mal quer me afetar.

Vai saber...

'Amanda Nascimento

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